quarta-feira, 14 de outubro de 2009

EU ? (foto Hans Silvester)


Quem sou eu?Eu sou eu mesmo, subindo e descendo as ladeiras do Pelourinho da vida, molhando os pés, sujando as mãos, eu sou coração, distribuindo sopapos. Sou uma canção que vem de longe, mansa, serena, doce como a manga Bourbon madura, ou por outra enigmático como o pequi. Eu não sou daqui!Sou da terra das maçãs, da massa fresca que brota na terra, reboca paredes, e enche estômagos vazios. Eu sou um terraço, marroquino, espiando a lua cheia chegar, sou um menino empinando pipa, extasiado com o céu, com o vento, sou um arquiteto bizantino construindo catedrais em papel de arroz e cetim. Eu sou assim. Mato e morro na Rocinha todo dia e desço na primeira enxurrada, perdido na multidão. Na minha mão aflita, todo mundo grita e pede perdão, e implora, por uma pequena chance para recomeçar. Não me contenho com muros, com cercas, com platéias, com arquibancadas lotadas, nem nas telas de cinema ou de aquarela, onde estou é sempre o meu lugar, qualquer lugar. Nem sempre venho caminhando, nem sempre venho violento, as vezes venho de violeta, de viola, de violão , meu som acalenta , alimenta ouvidos e paixões. Somos parecidos em cada tombo, e na descida, no chão, na terra, no terremoto, todos somos iguais, quando caímos. Mas na copa das árvores a paisagem muda, o que era cego vê, o que era mudo grita, o que era surdo escuta, o mundo se agita, porque podemos olhar para baixo, e baixo suspiramos aliviados, nosso chapéu é o céu, ou o sol, ou a lua. Somos todos um pouco místicos, um pouco magos, um pouco mastigáveis, nem sempre digeríveis, aqui já não vemos as estrelas, mas elas estão todas lá, espionando a humanidade. Quantas pétalas tem uma rosa? Quantas palavras tem uma boa prosa? Ah! Deixa prá lá.

Um comentário:

Unknown disse...

Parabéns pelas crônicas, ou seja lá o nome que se dá. Não sabia que tinha um escritor escondido, e que além de tudo dá os créditos a quem de direito.
Quantas mais escreverás? Espero que muitas...