quarta-feira, 7 de outubro de 2009

"POLLICE VERSO"



Quando me lembro das galés romanas cruzando os mares , sinto minhas mãos calejarem-se e sinto dor em meus músculos , tenho a sensação que já estive lá . E nas arenas grandiosas ouço gritos insanos, quando a fera perfura minha pele e me arrasta pelo chão , tenho a sensação que já estive lá . Quando me lembro dos navios piratas vergastados pelas tempestades , sinto enjôo , e quando me lembro dos galeões espanhóis , ingleses e franceses cuspindo fogo pelas bocas dos canhões ,sinto o aroma amargo da pólvora negra , ouço as marretadas da bola de fogo na popa e na proa , voam homens despedaçados e lascas de madeira nobre , sinto o cheiro de sangue e carne queimada , tenho a sensação que andei por lá .Quando me lembro dos navios negreiros , ouço gritos e choro de mulheres e crianças , nada vejo na escuridão , nada sinto em meu coração além de dor , além de medo e revolta , também choro amarrado a grossas correntes , não sei mas acho que estive lá .Chicotes de ferro e couro cruzam o ar e rompem a carne na pele negra , borbulha o sangue e continua a tortura , nada a paralisa , só o desmaio ou a morte , sorte dos tubarões no alto mar .Sinto cicatrizes profundas em minhas pernas e costas , talvez porque já estive lá .África porque teu povo sofre tanto ? Há tanto tempo.. As vezes sinto a medalha barata de identificação em meu pescoço , sinto o peso de uma mochila pesada nas costas , capacete , carabina , minas explodem em todo lugar .Faz muito frio , neva , clarões malignos mostram a silhueta das montanhas , mostram as silhuetas dos corpos em silêncio permanente . A quem pertencem? A que mãe? A que pai? Sinto como se fôsse hoje , como se fôsse agora as minhas mãos magras e sem cor , apertarem o arame farpado do campo vigiado . Dói muito! Cães latem e patrulham , atacam , não sabem o que fazem. Estamos todos vestidos iguais. Pijamas com listras horizontais .Olho meu pulso marcado que pisca intermitente uma marca , um número , um simbolo, um sinal , e eu não sei o que significa . Vejo filas de nós mesmos adentrando a construção , todos entram , ninguém sai .Para onde foram levados ? Tenho um mau pressentimento , algo me aperta o peito , e eu sei porque , acho que já estive lá .O estrondo me faz surdo , meus olhos pequenos e oblíquos nada vêem além da forte luz que cega .Levanta-se um enorme vulcão , furioso , cruel , vejo no céu somente uma nuvem poderosa e imensa se alastrar .Como vem rápida e eficaz , nada deixa , nada resta , por uma fresta eu vejo a vida se acabar . A Terra chora , grita , e eu ouço aqui , bem dentro de mim , talvez , quem sabe ? porque eu estive lá .Por estes dois mil e nove anos , do calendário gregoriano , eu tenho carregado muitas sensações , poucas boas , poucas belas , poucas indolores , poucas perfumadas de flor , poucas que me trazem saudade , poucas que me fazem feliz , e na verdade fico ansioso esperando , perguntando todo dia ao artífice do Universo , seu condutor máximo e supremo , seu criador , a mais alta das autoridades celestes , cósmicas , estelares ,... até quando ? Porque sinceramente , pelo que vejo e sinto hoje  , se tudo isso fosse um ônibus , eu só queria dizer : - Para!Para! Que eu quero saltar!

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