DÊ LÍRIOS
Enquanto você dorme, o tempo passa, avança indiferente, fatos acontecem, assaltos, acidentes, troca de fluídos, transações, traições, altas e internações, nascimento e morte, azar e sorte, perdas e ganhos. Enquanto você dorme, alguém come um filé com fritas, alguém chora, alguém suspira, alguém se inspira numa taça de vinho ou num copo de cachaça. Enquanto você sonha e baba no travesseiro, a realidade prossegue implacável, pássaros voam, aviões voam, a Terra, essa imensa bola azul e branco, gira vagarosamente, oceanos se agitam e se acalmam, como a tua alma. Calma e pressa se enovelam em espirais nos cérebros, nas mentes, alguns dizem a verdade e outros descaradamente mentem. Flores se abrem, pessoas se fecham, num transe de vergonha, orgulho e medo, e cedo jornais são atirados no portão. Catástrofes anunciadas, fatos anunciados se repetem como um antigo vídeo tape, onde as personagens são sempre as mesmas, com outras roupas, outros acessórios. Mas são os mesmos atores encenando velhas peças. Vez por outra uma novidade: um protesto, um novo gesto clamando por paz ou por guerra, e de alguma forma brotará mais uma vez um conhecido sangue sobre a já tão ferida Terra. A talentosa Lady Gaga já está ficando velha, Madonna já está com um pé no asilo? A fama é efêmera, enquanto você rola na cama, crianças no Taiti comem tortas de lama. Tablets, i-pods, i-phones, são jogados como revistas, o que mais falta inventar? O que mais falta criar? Acho que de fato o grande negócio está deixando de ser "inventar", o grande negócio daqui para frente será "redescobrir". Redescobrir como cobrir o chão nu, pelado, maltratado, descobrir como ter de novo aquele viço, aquela disposição para correr riscos que dão prazer. E num misto de medo e excitação, todos procuramos uma paixão, daquelas que apertam o peito e o coração, daquelas que só de pensar dão tesão, e depois de consumadas descarregam a tensão, como um feixe de luzes que se acendem e explodem em meio a escuridão, como um peixe que lutando contra a correnteza e as pedras finalmente desova suas ovas e pode morrer em paz. Enquanto você dorme a chuva cai, tiros certeiros furam placas na estrada, pessoas se embriagam pela madrugada, uns caem pelas calçadas, outros caem na farra, e sem alegria e sem garra acham que isso é felicidade, passageira, apetitosa donzela que de janela escancarada acena e convida para subir, mas quando lá se chega o quarto está vazio, apenas um quadro na parede rachada, e nele está escrita a palavra ILUSÃO, quando na verdade você procurava outra palavra, outra visão. Mas a realidade se distorce enquanto você se contorce feito serpente na areia caliente, da tua veia um sangue pálido porem cálido viaja pelo corpo. Sobe e desce feito elevador. Da tua mente brotam imagens de um colorido vibrante, vão e vêem e se apagam, algumas assustam outras consolam. Tudo o que você pensa tem imagem? Enquanto você mastiga um pedaço de pão, com manteiga ou não, olhos ti observam, como agentes do FBI disfarçados em armários, louças e espelhos, e você entra no túnel das obrigações. O tempo, ah! o tempo! Continua correndo, passando voando feito uma tartaruga ninja a 60 minutos por hora, mas o teu pensamento é muito mais rápido e veloz, num estalo estás no Tibet., andas pela avenida Paulista, passa pelo Butão, Nova York, sertão, sem sair do lugar, sem nem piscar. É magia e mistério, é divertido, mas também é sério, quando você finalmente acorda e se olha no espelho,enquanto escova os dentes, e percebe que aquela pessoa que você enxerga já não é mais a mesma pessoa.
PLZ- Boca de Lobo


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