quinta-feira, 6 de maio de 2010

A BORRACHA DO TEMPO



A infalível borracha do tempo vai apagando minhas lembranças, como chuva grossa na areia fina da memória. Mesmo que eu não queira, mesmo que eu não permita, ela vai removendo implacavelmente pedaços da minha infância, trechos da minha adolescência e da minha juventude. E naquele fino pó esfarelado vão embora como cinzas, levados pelo tempo, fragmentos da minha vida. Vão-se feridas, alegrias, cicatrizes, comemorações, as primeiras vitórias, as primeiras conquistas. E então minha memória encalha, falha, encarcerada em incertezas e dúvidas. Foi assim ou foi assado? Não me lembro mais. Não dá prá voltar a fita, fazer um replay, tudo passa, tudo vira traça, e então quando tento resgatar daquele velho livro na estante da minha vida, algumas páginas,onde episódios marcantes proporcionaram momentos irresponsavelmente agradáveis, só consigo ver páginas amareladas , oxidadas pelo senhor tempo, fotos desbotadas, fatos entrecortados, interrompidos, como o fim do Sol e a chegada da Lua. E nas voltas que o mundo dá, tudo se perde no espaço, memórias, passagens, encantamentos. Alguns preferem chamar tudo isso de passado.Assim tão simples?Acho que não! É história, trajetória, bagagem que carregamos pela estrada da Vida. Mas é verdade: o que passou não se recupera mais. Não se recuperam os momentos em que tivemos a oportunidade de sorrir, de se soltar, se mostrar, e optamos por uma contenção, uma omissão conveniente, a título de se preservar (que besteira!), na segurança do nosso casulo particular. Todo mundo tem um casulo exclusivo, só seu, trancado a sete chaves, e guarda em seu interior segredos, desejos, sonhos, pecados. Mas o tempo não se prende a nada, ele vai passando, e logo atrás vem a borracha apagando, implacável, mortífera.Dizer que o tempo é um remédio tá bom, mas dizer que é um "santo" não, porque a borracha  não apaga só aquilo que queremos,aquilo que de fato gostaríamos de esquecer,ela apaga o que quer. Como gostaríamos de apagar certos acontecimentos, certas atitudes, não deixar o mínimo vestígio, mas ela, ah! , parece que propositadamente "passa batida", fecha os olhos, pula, e então bruscamente esses "fantasmas" dão o ar da sua graça, e nos assombram vez por outra. Às vezes provocam remorsos, outras vergonha, medo e tantas outras sensações desconfortáveis. Mas somos a somatória das nossas lembranças, das boas e das más. Quem ainda não se arrependeu pelo que fez, ou pelo que não fez?Quem ainda não sofreu calado (a) por não ter, ou não querer ter com quem compartilhar a sua dor?Quem não se perdeu e ainda hoje procura se achar? Mas o tempo vai em frente e a cada dia, cada ano, leva um pedaço para o arquivo morto. Leva lembranças e traz rugas, leva saudades e deixa o envelhecimento contínuo das nossas células. É uma troca injusta!E se é assim que funciona, o negócio é não esperar pelo amanhã, é explorar o "hoje", é curtir, viver, é tirar do casulo tudo aquilo que nos fará felizes, é deixar nascer a borboleta, porque ainda que maravilhosa, ela tem pouco tempo de vida para realizar a sua missão. O tempo não deveria ser perdido, mas encontrado, em cada pequena alegria que podemos nos proporcionar. "Aproveitar enquanto é tempo, amanhã pode ser tarde demais". Essa máxima pode enganar o tempo, não por muito tempo.

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