quarta-feira, 26 de maio de 2010

BAMBINO(MENINO)


BAMBINO
Era tão forte que "dobrava" uma esquina, e com a "linha" do horizonte remendava os rasgos do passado, mas era com a linha do tempo que tecia seu futuro. Enchia a Lua e acendia cada estrela, todo santo dia. Não era santo, talvez um anjo, perdido, dividido, como todo mundo, ora no trilho do bem, ora no trem do mal. Um andarilho, um pobre menino deslumbrado com as vitrines de grife. Seu destino era o mundo, tocava vários instrumentos, mas sua preferência era tocar a Vida, tocar em frente. Na noite calada declamava poesia, para as sombras voláteis, prisioneiras da rua. Sempre cobria a sua verdade, para que não se apresentasse nua, e também lhe deitava fervura, para que não se apresentasse crua. Na corda era bamba,no coração e nos pés era samba,ginga flexível feito mola, ora se esticando todo, feito goleiro bom defendendo o gol sagrado da bola, ora se recolhendo, se encolhendo,se contorcendo e sumindo, virando incógnito num mar de gente infeliz. Também era bom de bola posto que driblara a morte. Estando em sua beira, por puro bom senso ou proteção divina, resolveu recuar. Era sempre um aprendiz, um neófito, talvez um cavaleiro Jedai sem espada, um apóstolo desgarrado do mestre, querendo engolir sempre mais do que podia digerir. Ninguém lhe deu uma mão, no máximo recebeu um tapa, um empurrão, ou só por farra um par de luvas poídas, para segurar a barra, sabe? O tempo não lhe envelhecia, porque vencia cada batalha, cada hora do dia se ocupando em não oferecer resistência, apenas se deixando levar. E o tempo passava, sem percebê-lo, sem notá-lo. Seguia o vento, ora prá cá, ora prá lá. -Ora-pro-nobis minha senhora! , repetia sem parar no altar da igrejinha imaginária. Porque muitas vezes, flagelado pela fome e pelo frio, se compadecia não de si, mas de dó, dos outros do lado de lá, que nem o Sol conheciam. Sabia que a diferença entre a bomba e a pomba era apenas um "b", e a diferença entre a vida e a morte apenas um "se". Cresceu rápido, como um eucalipto, mas não tinha os pés de fruta para se alimentar, nem de caqui, nem de mamão, tinha os pés de vento, seu aliado quando queria voar, quando queria voltar para a mãe que não teve, para o pai desconhecido. Mas era só uma ilusão.Poderia ter sido um bandido, perdido entre tiros, mas preferiu continuar sendo um menino perdido entre balas, e sorvetes, entre bolas e enfeites, como toda criança deveria se achar. Porem vencido pela adolescência, pela ausência de um lar, resolveu se aposentar, de agora em diante não seria mais um cigano replicante, queria se soltar, se prender a alguma coisa maior. Maior que o céu, maior que o mar. E então um belo dia, desses que a chuva passa longe, e o vento não assovia, e só reinam absolutos: o azul do céu, sem nuvem alguma, e o laranja do Sol colorindo ameno toda vida, ele resolveu se apaixonar. Se escolheu certo ou errado não se tem notícia, mas pelo que consta no cerne da questão crucial, sem esse sentimento experimentado, sorvido, entalado, ninguém poderá dizer uma única vez, que aprendeu o que é a Vida, sem amar. Então esse nosso menino, que do sofrimento fez uma partitura, pode finalmente tocar, a sua música mais bela, mais terna, e deixar para o mundo um legado: "ninguém é um pobre coitado, salvo aquele, que não permitiu se deixar amar".E de varanda em varanda,de vento em popa, de galho em galho, ele continuou a pular, continuou a procurar a sua musa,sua fada, a sua ninfa tão peculiar.E a achando se perdeu, no ponto cego do ego desfaleceu, virou sapo untanha e adormeceu. Mas uma bela princesa, dessas de olhos verdes ou azuis, uma noite o encontrou, e com um beijo doce o despertou. E para terminar a sua trajetória, cheia de luta, cheia de glória, e de uma forma inédita, para terminar essa história, só resta dizer que: "Foram felizes para sempre".

sábado, 15 de maio de 2010

BUTANTÃ, FATALIDADE OU PRECARIEDADE?




BUTANTÃ, FATALIDADE OU PRECARIEDADE?
INCÊNDIO NO ACERVO HISTÓRICO


Realmente é lamentável que um acervo histórico, com mais de cem anos de estudos e pesquisa, tenha virado cinzas. Poderíamos supor que mais uma vez a "fatalidade" destruiu preciosidades científicas na história do Brasil, mas parece não ser o caso. Um local de tamanha importância para cientistas, pesquisadores, na verdade vivia à míngua. Algumas espécies só existiam em todo o mundo em um reduzidíssimo número, de apenas um dígito, e com certeza fora do Brasil estão preservadas e muito bem guardadas, mas aqui, na pátria amada, foram vítimas do pouco caso, do abandono, e da falta de direção na condução de cuidados básicos de segurança e preservação. Espécies da década de 10,20,30, e que contavam a história não só do Instituto Butantã, mas também contavam um pouco da história do Brasil , foram aniquiladas, viraram pó, como também virou pó o trabalho de anos de cientistas e pesquisadores. E assim a ciência perde, e a ciência perdendo, perde também a natureza, e perde o ser humano uma preciosa dádiva que é o conhecimento. Inacreditável supor que com escândalos(arquivados) da ordem de R$ 30 milhões de reais,verbas para manutenção e outros tantos recursos financeiros, nada foi feito com o "Acervo Histórico" de mais de cem anos. Infelizmente a verdade dos fatos não será exigida, mas com certeza será mascarada atrás de algum problema ligado aos fios e postes externos ao Butantã. Tomara sirva de exemplo, e mais que isso sirva para uma renovação, para que finalmente o ranço e o bolor que acomete determinadas instituições públicas brasileiras, sejam definitivamente eliminados. A sociedade comum e a científica agradecem!

quinta-feira, 6 de maio de 2010

A BORRACHA DO TEMPO



A infalível borracha do tempo vai apagando minhas lembranças, como chuva grossa na areia fina da memória. Mesmo que eu não queira, mesmo que eu não permita, ela vai removendo implacavelmente pedaços da minha infância, trechos da minha adolescência e da minha juventude. E naquele fino pó esfarelado vão embora como cinzas, levados pelo tempo, fragmentos da minha vida. Vão-se feridas, alegrias, cicatrizes, comemorações, as primeiras vitórias, as primeiras conquistas. E então minha memória encalha, falha, encarcerada em incertezas e dúvidas. Foi assim ou foi assado? Não me lembro mais. Não dá prá voltar a fita, fazer um replay, tudo passa, tudo vira traça, e então quando tento resgatar daquele velho livro na estante da minha vida, algumas páginas,onde episódios marcantes proporcionaram momentos irresponsavelmente agradáveis, só consigo ver páginas amareladas , oxidadas pelo senhor tempo, fotos desbotadas, fatos entrecortados, interrompidos, como o fim do Sol e a chegada da Lua. E nas voltas que o mundo dá, tudo se perde no espaço, memórias, passagens, encantamentos. Alguns preferem chamar tudo isso de passado.Assim tão simples?Acho que não! É história, trajetória, bagagem que carregamos pela estrada da Vida. Mas é verdade: o que passou não se recupera mais. Não se recuperam os momentos em que tivemos a oportunidade de sorrir, de se soltar, se mostrar, e optamos por uma contenção, uma omissão conveniente, a título de se preservar (que besteira!), na segurança do nosso casulo particular. Todo mundo tem um casulo exclusivo, só seu, trancado a sete chaves, e guarda em seu interior segredos, desejos, sonhos, pecados. Mas o tempo não se prende a nada, ele vai passando, e logo atrás vem a borracha apagando, implacável, mortífera.Dizer que o tempo é um remédio tá bom, mas dizer que é um "santo" não, porque a borracha  não apaga só aquilo que queremos,aquilo que de fato gostaríamos de esquecer,ela apaga o que quer. Como gostaríamos de apagar certos acontecimentos, certas atitudes, não deixar o mínimo vestígio, mas ela, ah! , parece que propositadamente "passa batida", fecha os olhos, pula, e então bruscamente esses "fantasmas" dão o ar da sua graça, e nos assombram vez por outra. Às vezes provocam remorsos, outras vergonha, medo e tantas outras sensações desconfortáveis. Mas somos a somatória das nossas lembranças, das boas e das más. Quem ainda não se arrependeu pelo que fez, ou pelo que não fez?Quem ainda não sofreu calado (a) por não ter, ou não querer ter com quem compartilhar a sua dor?Quem não se perdeu e ainda hoje procura se achar? Mas o tempo vai em frente e a cada dia, cada ano, leva um pedaço para o arquivo morto. Leva lembranças e traz rugas, leva saudades e deixa o envelhecimento contínuo das nossas células. É uma troca injusta!E se é assim que funciona, o negócio é não esperar pelo amanhã, é explorar o "hoje", é curtir, viver, é tirar do casulo tudo aquilo que nos fará felizes, é deixar nascer a borboleta, porque ainda que maravilhosa, ela tem pouco tempo de vida para realizar a sua missão. O tempo não deveria ser perdido, mas encontrado, em cada pequena alegria que podemos nos proporcionar. "Aproveitar enquanto é tempo, amanhã pode ser tarde demais". Essa máxima pode enganar o tempo, não por muito tempo.