quarta-feira, 27 de novembro de 2013

MEMÓRIAS DE UM ESCRAVO.








MEMÓRIAS DE UM ESCRAVO
Remexendo velhos papéis, antigos guardados, encontrei esses textos, cuja importância para os dias atuais considero pertinente. Não sei de fato se são fruto de alguma mente sábia, cuja origem extrapola a minha pouca compreensão, não sei se foram palavras ditadas em uma dessas noites longas, para alguma nobre alma logo após a abolição, não sei se são fruto da minha imaginação... O fato é que ali encontrei um ponto de vista, um pensamento, uma forma de ver a vida e a liberdade, que me fizeram repensar alguns conceitos.  Pareceu-me surpreendente que naquela época, ele pudesse se antecipar ao tempo e chegar aos nossos dias, utilizando palavras e conceitos tão vigentes para nós. Vou transcrever suas palavras "ipsis literis". Ele começa assim:
- Acho que apesar de ter sido chamado de "escravo", eu fui muito mais livre do que vocês.
Na realidade penso que escravos são vocês. São escravos da escova, do copo, do prato, do garfo, da faca e da colher. Eu nunca precisei de nenhum destes objetos para manter meus dentes limpos e fortes, sempre bebi uma água pura na concha das minhas mãos, que também serviam para levar o alimento até a minha boca. Nunca tive azia, má digestão, sempre comi em paz, sem nenhuma aflição. Vocês também comem assim? Acho que não! As coisas que eu comia eram colhidas ali na hora, no pomar, na horta, a terra era boa, não precisava de nada não, só água. Não tinha agro tóxico, nenhum produto químico, era tudo muito bom, fresquinho. Eu não pagava aluguel, imposto, taxa disso, taxa daquilo, eu não precisava de nada, só um lugar para me deitar. E isso eu tinha, ah!  uma palha macia que eu ajeitava para me acomodar. De onde eu dormia eu podia ver as estrelas no céu, pontinhos de luz brilhante, podia olhar para elas e agradecer, rezar para o meu senhor Jesus Cristo me abençoar. Não precisava seguir essa ou aquela religião, só meu coração. Quando acordava "de manhãzinha", o sol estava nascendo no horizonte, bonito, imponente, e eu podia escutar os passarinhos cantar, voando prá lá e prá cá, era uma algazarra, uma alegria no ar. Não tinha fumaceira de gasolina, a fumaça vinha do fogão à lenha preparando o café, do forno de barro assando o pão. Que cheiro bão! Não tinha trânsito, congestionamento, confusão. Ninguém chegava atrasado, ninguém precisava dar desculpa ao patrão. Não tinha metrô, ônibus, carro?, só o de boi, assoviando nas rodas e abrindo caminho. Não tinha aquela "gentarada" correndo apressada, de cara feia, mal humorada. Ia todo mundo cantando uma moda alegre, afinada. Eu era mais livre do que vocês! Não precisava de dinheiro, pra que? Eu não tinha nenhuma conta para pagar, eu não tinha ninguém pra sustentar, ninguém usava banco, cabeleireiro, manicure, ninguém precisava passar creme no rosto, arrumar os cabelos, usar roupa da moda, ostentar mais do que é, se endividar, não, ninguém precisava mostrar que o seu carro era melhor, mais bonito, mais caro. Ninguém usava bolsa, carteira, celular? Celular pra que? Ficar o dia inteiro grudado esperando alguém ligar, e depois ficar triste porque ninguém ti ligou! E não tinha muro, nem portão, não precisava, não tinha bandido, nem ladrão. Vocês é que são escravos!
Escravos das horas, do trabalho, que muitas vezes não tem um pingo de amor, é só necessidade, inclusive de vaidade. Escravos dos compromissos, muitos dos quais vocês não iriam se não fossem convidados, mas vão porque são obrigados. Escravos da moda, das academias de ginástica, das cirurgias plásticas, do botox, escravos dos anti depressivos, dos regimes para emagrecer, escravos da poluição, das greves, das rebeliões. Vocês são escravos da televisão, do computador, da internet, e eu pergunto e se um dia acaba a luz, a energia elétrica, como vocês vão viver? E vocês me dizem que são livres, que tem liberdade? E tem aqueles que são escravos do vício, da bebida, das drogas e de outras coisas que não "carece" falar. Vocês moram em prisões, cheios de portões, cheios de grades, uns em casa deitada e outros em casa esticada, um encima do outro, casa "cumprida" que quase chega ao céu. É cheio de um tal de "levador" e de escada, e se acaba a luz toca descer e subir no escuro toca dar "pernada". E vocês que vivem cansados logo sentem o pouco ar nos pulmões, não estão acostumados... Usam o carro para ir à padaria da esquina..., prá comprar jornal ali do lado... Eu sei, eu sei, vocês vão me falar que eu é que não tinha liberdade, vocês vão dizer que não ficam presos em correntes , e eu quero dizer que nem eu. Vocês vão-me dizer que podem ir e vir quando quiserem, e eu quero dizer que eu também podia ir e vir o quanto quisesse. Vocês vão me dizer que não tomam chibatadas, e eu quero dizer que eu nunca levei um tapa ou uma chicotada, porque quem chicoteia a gente de verdade é a Vida, e eu nunca mereci este castigo dela, e "ôceis"? A verdadeira liberdade está dentro da gente, no coração, na mente, "seis" tem um coração bondoso, amoroso? Eu sempre tive e "ôceis"? Dentro da minha cabeça, da minha mente eu nunca tive inveja, nunca pensei maldade, e "ôceis"? Vocês vão dizer que nunca foram humilhados, nem eu! E eu me garanto e vocês "tão" dizendo a verdade? Eu nunca quis ser melhor do que ninguém, eu fui o que sou, sempre aceitei de bom grado a forma como Deus me criou, e "ôceis"? Nunca quis mudar o nariz ou o penteado. Sempre fiz o meu melhor, não foi para ninguém não, foi para mim mesmo, e sabe por quê?Porque quando eu me deitava eu queria dormir com a minha consciência limpa, e "ôceis" conseguem dormir assim todo dia? Vocês podem dizer que eu sou um pobre coitado, um ignorante, um pé rapado, mais eu digo para vocês que isso tudo é besteira, porque na hora da verdade, a única bagagem que se pode levar só vai estar escrita na testa, -Esse foi bom! Ou Esse não presta! , porque de uma coisa vocês podem estar certos, daqui a gente não carrega nada, nem riqueza, nem jóia, nem carro, nem casa, a gente só pode carregar o que praticou de amor, de bondade, de caridade, de fraternidade. A gente só pode levar o que perdoamos e pedir para ser perdoados. O juiz é severo e não se impressiona com dinheiro, com diploma, só se impressiona com o que se traz na alma e dentro do coração. Tá entendido?Intão tá bão!
BOCA DE LOBO( hoje meio Pai João)