sexta-feira, 14 de outubro de 2011

GUIA DE CÃO CEGO





















GUIA DE CÃO CEGO
Eu guio um cão cego pelo mundo, e embora seus olhos sejam de um azul intenso, quase santificado, ele nada enxerga, ele nada vê. Doença de nascença o mantém na escuridão, e eu procuro em cada afago, em cada fala, em cada carinho, colorir sua vida de cão. Seu faro é apurado, late para o gato que não vê, para estranhos, para a folha seca que desce da árvore e bate no cimento avermelhado do chão. Reconhece minha mão que o alimenta, que o acalma, esquenta. Reconhece o tilintar da guia e da coleira, presságios do passeio pela rua, cheia de odores, cheia de aventuras. Eu sinto sua gratidão em cada lambida, em cada abano de cauda. E muitas e muitas vezes, honestamente, eu não sei quem guia quem, não sei se tenho ele ou ele que me tem. E nesse vai e vem da Vida, quem não persegue uma saída? Muitas e muitas vezes entramos curiosos, pela nossa ansiedade, pela nossa saciedade. Procuramos a verdade, aquela que custamos a reconhecer, e quando finalmente achamos que chegamos ao fim, descobrimos que é só o começo de uma longa trilha. Ah! Em quantos momentos gostaríamos de ter um guia? Aquele guia cuja única missão é nos conduzir em segurança. Aquele que nos desvia dos buracos da solidão, dos postes da ignorância, aquele que não nos deixa atravessar a rua movimentada da ilusão, aquele que sabe que o momento é de farol fechado, vermelho intenso, e não devemos prosseguir, mas aguardar pacientemente que a ordem se restabeleça. E então seguir em frente, indiferente àquela multidão de gente que se mistura e se funde num quadro vivo de cores. E entre tantos caminhos, tantos degraus para baixo e para cima, ora subimos, ora descemos as escadarias do mundo. Impossível não escorregar aqui ou ali, impossível durante essa curta existência não tropeçar, cair. Confesso, me sinto orgulhoso de guiar meu cão cego, massageia meu ego, embora eu saiba lá no fundo, de verdade, que ele não enxerga mas vê tudo, e eu de fato é que sou cego, porque não vejo aqueles que de fato me amam, tampouco aqueles que me odeiam, ambos não pelo que sou, mas pelo que faço, como aquele velho palhaço que a alguns encanta, e a outros assusta pela tristeza do seu olhar. Mas não tenho medo do escuro por isso ou por aquilo, tenho medo da mentira, da falsidade, da crueldade. Mas não me abalo, junto com meu cão cego atravesso essa espessa camada de hipocrisia desumana, fazendo de conta que nunca me tocarão. Nem sempre nossa presença é bem vinda, nem sempre nos dão passagem, nem sempre nos deixam entrar. Porem não estamos ligados somente por uma coleira e uma tira de couro, estamos ligados "siamesamente" por um sentimento de amor e devoção, e assim quem poderá nos impedir de prosseguir nesta jornada? Somente a morte, sorte daqueles que nada mais tem para receber e dar.
Boca de Lobo
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